“Proposta de manter ensino funcionando ‘a toque de caixa’ e passar de uma semana para outra do presencial ao virtual obviamente não foi bem-sucedida”, diz presidente da Adusp

Segundo webinário promovido pela entidade fez um balanço da situação da USP depois de quase dois meses de paralisação das atividades presenciais. Um dos principais problemas apontados na conversa realizada nesta quinta-feira (7/5) é que uma parcela significativa dos alunos não acompanha as aulas a distância, e os principais prejudicados são os cotistas e os menos favorecidos

 

Adusp

O segundo webinário promovido pela Adusp durante a quarentena, realizado na tarde desta quinta-feira (7/5), teve como título “Docência e pesquisa na pandemia: balanço e perspectivas”. O encontro, como ressaltou na abertura o presidente da Adusp, professor Rodrigo Ricupero, demonstra que, nesta situação inédita para todos, a diretoria do sindicato tem procurado familiarizar-se com as atividades virtuais e manter-se em atividade, “dando suporte aos colegas que nos procuram e fazendo o nosso papel de cobrança de algumas questões da administração da USP e do Cruesp [Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas]”.

Ricupero traçou um histórico da atuação da Reitoria da USP desde a segunda semana de março, salientando que, ainda que seja possível entender as dificuldades dos administradores para lidar com a crise, algumas decisões têm sido “muito complicadas” e passíveis de crítica. “Basta lembrar que no primeiro informe publicado pelo reitor, no dia 13/3, eram mantidas as aulas presenciais, quando já tínhamos o primeiro caso diagnosticado na universidade e o Departamento de Geografia tinha suspendido as aulas”, lembrou. “O reitor também fazia menção a ‘medidas populistas’ que nunca dão bons resultados. Essa tem sido a tônica.”

A USP acabou obrigada a suspender as aulas a partir do dia 17/3 por iniciativa do governo estadual, e logo em seguida “os professores foram imediatamente empurrados, sem nenhum tipo de planejamento maior, para esse esforço das aulas não presenciais, online, ou como se queira chamar”, disse o presidente da Adusp, apontando que “esse é o maior problema” enfrentando na universidade hoje.

Na avaliação de Ricupero, o mínimo que se poderia esperar por parte da Reitoria era que houvesse uma suspensão provisória das atividades para que fosse realizada uma avaliação da situação e encaminhada uma eventual reorganização de atividades a distância “com mais controle e com um planejamento mínimo”. Essa foi, por sinal, a conduta da Secretaria Estadual da Educação em relação ao ensino fundamental e médio.

“A universidade manteve de certa forma uma espécie de bravata de que ‘a USP não iria parar’. É claro que algumas coisas não podem parar, mas o ensino poderia, para que a gente pudesse ter uma reflexão maior”, apontou. “Essa proposta de manter o ensino funcionando a toque de caixa e passar de uma semana para outra do presencial ao virtual obviamente não foi bem-sucedida.”

Narrativa da Reitoria “romantiza” a quarentena para justificar EaD

A nova realidade da quarentena, enfatizou o presidente da Adusp, é apresentada com certa “romantização”, como se todas as pessoas da comunidade universitária tivessem as condições ideais —de moradia, psicológicas e de acesso a equipamentos e à Internet —para lidar com as questões do ensino a distância (EaD). “Isso não é verdade nem para os professores nem para os alunos”, afirmou. De outra parte, a estimativa divulgada pela Pró-Reitoria de Graduação (PRG) de que cerca de 90% dos cursos continuavam a ser realizados online “é um dado muito inflado”, considera. Poucos cursos têm atividades sincrônicas, e a maioria de fato não tem.

Um dos principais problemas gerados com a nova situação é que, de acordo com a avaliação da Adusp, aproximadamente metade dos alunos não está participando dessas aulas e atividades, realidade que atinge principalmente os cotistas e os estudantes menos favorecidos. “A escolha que a USP fez beneficia os privilegiados e exclui um setor grande dos nossos alunos menos favorecidos”, ressaltou.

Na sua intervenção inicial, o presidente chamou ainda a atenção para a campanha de solidariedade social integrada pela Adusp, ao lado do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), do DCE-Livre “Alexandre Vannucchi Leme” e do Coletivo Butantã na Luta, e para os ataques ao funcionalismo que vêm surgindo de diversos setores com o objetivo de reduzir ou congelar os salários dos servidores.

Fórum das Seis reivindica manutenção de recursos previstos na Lei Orçamentária

A primeira vice-presidenta da Adusp, professora Michele Schultz Ramos, fez um relato sobre a reunião do Fórum das Seis e do Crusp, realizada na manhã desta quinta. A campanha salarial da data-base deste ano foi suspensa pelo próprio Fórum das Seis, que havia encaminhado aos reitores um conjunto de temas para discussão. “Todas as reuniões com o Cruesp são muito difíceis, e a de hoje, remota, só agudizou alguns aspectos”, apontou Michele. Um dos problemas foi que a pauta enviada pelo conselho com o convite para a sala virtual de reuniões não contemplava os temas do documento do Fórum.

As entidades levantaram cinco pontos principais, relatou a docente. O primeiro é o de manter a quarentena para salvar vidas. Michele lembrou que já houve quatro mortes relacionadas à Covid-19 na comunidade da USP, sendo dois casos de funcionários terceirizados que pertenciam ao grupo de risco e que não foram dispensados do trabalho. A situação do Hospital Universitário (HU) também foi citada. Ali, cerca de 30% dos funcionários são do grupo de risco e, como diz a própria Superintendência do HU, não podem ser dispensados porque nesse caso o hospital teria que fechar. “Deveria haver um plano de contratação emergencial para liberar essas pessoas, inclusive lactantes e gestantes”, defendeu Michele.

O segundo ponto enfatizado pelo Fórum das Seis é a necessidade de que os recursos orçamentários previstos para as universidades estaduais na Lei Orçamentária Anual (LOA) sejam mantidos. As reitorias já estão tomando medidas de contenção de gastos que incluem inclusive cortes de salário: na Unicamp, foi retirado o adicional noturno dos trabalhadores.

O terceiro item foi a reivindicação de que os reitores respeitem os colegiados e as representações sindicais e estudantis das universidades. Desde o início da quarentena, por exemplo, a USP e a Unesp não realizaram reuniões dos respectivos conselhos universitários.

Em relação às aulas por meio digital, quarto item, o Fórum das Seis ressaltou a questão da desigualdade de acesso não só para os estudantes, mas também para docentes. “Há muitas pessoas, principalmente mulheres, por conta de nossa tradição patriarcal, que estão garantindo o cuidado de familiares doentes, idosos e crianças”, enfatizou Michele. O quinto ponto retoma a necessidade de contato constante do Cruesp com as entidades sindicais e estudantis, com a realização de ao menos uma reunião mensal – ou mais, caso haja necessidade.

Discurso de que “a USP não vai parar” aprofunda discriminação de gênero

A segunda vice-presidenta da Adusp, professora Annie Schmaltz Hsiou, ressaltou que a pandemia e o discurso de que “a USP não vai parar” aprofundam ainda mais as desigualdades sociais e a discriminação de gênero dentro da USP. A diretoria da Adusp já vem denunciando reiteradamente políticas que têm impacto negativo para as docentes e alunas da universidade —uma delas é a redução das vagas nas creches da USP, adotada desde 2014, culminando com o fechamento da Creche Oeste, no Câmpus do Butantã, em 2017. A professora citou ainda os problemas enfrentados pelas alunas mães que vivem na moradia estudantil.

As pautas de gênero apresentam muitas contradições na universidade, apontou Annie —como o ingresso da USP no Programa HeForShe, das Nações Unidas, e a criação do Escritório USP Mulheres ao mesmo tempo em que ocorria a perseguição a professoras que eram cobradas por produtividade em períodos que incluíam licença-maternidade. Um caso extremo foi o da docente Cynthia Ferreira, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), desligada em 2018 do Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa (RDIDP).

Annie lembrou que para muitas docentes o período da quarentena acarreta uma jornada dupla ou tripla, porque é sobre as mulheres que recai a maior parte do trabalho doméstico e do cuidado com as crianças, pais, familiares idosos ou com doenças crônicas. Levando em conta todo esse cenário, “como as aulas remotas terão qualidade e qual o impacto disso na formação dos estudantes da USP?”, questionou.

Annie também ressaltou que as avaliações da Comissão Especial de Regimes de Trabalho (CERT) deveriam levar em conta os problemas enfrentados por aqueles e aquelas que atualmente precisam dedicar grande parte do dia ao cuidado dos familiares. Outra preocupação é a forma pela qual a USP vai retomar as atividades presenciais: “Vamos voltar tão rapidamente quanto entramos no regime do teletrabalho?”, indagou.

“Reúnem-se os dirigentes, mas não se reúne o Conselho Universitário”

Antes de abrir o debate com os docentes que acompanhavam a conversa, o presidente da Adusp observou que, em resposta aos boatos de retorno às atividades presenciais, o reitor anunciou no Jornal da USP que não existe decisão a respeito. “Agora, o grande problema colocado é que todas essas decisões tomadas pela administração são feitas por fora dos colegiados da universidade”, comentou Ricupero. “Reúnem-se os dirigentes, que é um fórum que não existe no Estatuto da USP, [mas] não se reúne o Conselho Universitário. A última deliberação da Pró-Reitoria de Graduação foi ad referendum, quer dizer: um abuso. A gente pode ter aula online mas não podemos ter colegiados centrais online. No fundo a administração se aproveita disso para evitar uma maior discussão, quando o momento pede um diálogo muito maior com a comunidade”, assinalou Ricupero.

O professor Sérgio Paulo indagou aos diretores da Adusp se têm conhecimento de uma nova rodada ou edital sobre progressão horizontal de carreira na USP. “Nesse momento em que ninguém sabe sobre queda do ICMS, inclusive antes de discutir o reajuste, vai se abrir progressão horizontal? Me pareceu bem absurdo na total incerteza em que estamos. Primeiro vamos discutir a questão de repor para todos, porque a gente sabe que esses processos de progressão muitas vezes, quando não 100%, são enviesados. São avaliações que sabem se você brigou com o diretor, [ou] com o reitor”. Essa ideia parece ter aparecido na “reunião de dirigentes”, respondeu Ricupero. “Talvez a ideia da Reitoria seja a seguinte: como na lógica deles não vai haver aumento de salário, seria uma brechinha para compensar um pouco”. Michele afirmou que a minuta proposta pela Cruesp na reunião da véspera “trazia no subtexto esse zero por cento, por isso inclusive a gente não concordou”.

O professor Paulo Oliveira (FFLCH e Unicamp) destacou a questão da avaliação do corpo discente como estratégica nesse momento. “Seguinte: eu consegui cancelar minhas turmas na Unicamp. Sou professor de alemão na graduação. Trabalho com ensino a distância desde antes da Internet, desde a década de noventa, tentando fazer disso uma coisa inclusiva. Uma questão que eu gostaria de ver discutida na universidade — estou tentando colocar isso onde eu trabalho, que é o Centro de Línguas da Unicamp — é como é que fica a avaliação. O semestre continua, as pessoas não têm necessariamente o mesmo desempenho, a capacidade de adquirir os conteúdos que teriam na situação normal. Vão ter os créditos?” Ele exemplificou: “Nós temos níveis no alemão: I, II, III. Imagino, entre aspas, que cálculo também tenha isso. Como é que alguém faz Cálculo II sem ter entendido bem Cálculo I? Como é que fica essa questão? Esse é um tema crucial para ser colocado em pauta, porque é um faz-de-conta danado. O semestre tem que continuar custe o que custar, e aí institucionaliza o faz-de-conta. Qual é nossa responsabilidade social? Não sei como colocar em pauta e dar um destaque a essa discussão. Porque é aí que pega”.

“Tem que ficar claro para todo mundo que a resposta do Cruesp para essa reunião era com relação a um ofício que foi mandado um mês atrás, que tinha como pauta um tema só, que era a pandemia. Um mês atrás. As questões que os colegas estão colocando são importantes, sem dúvida, mas é importante que todo mundo tenha clareza de que a resposta do Cruesp veio um mês após a solicitação, e para tratar de outra coisa que não o tema proposto”, destacou o professor César Minto, da diretoria ampliada da Adusp. “Porque nós estamos falando num primeiro momento de preservação de vidas. E olhem o problema que está havendo no HU da USP, no HC de Campinas e provavelmente no HC de Ribeirão Preto. É disso que nós temos que tratar em primeiro lugar”.

O professor Valdir Beividas (FFLCH) apontou riscos no comportamento da Reitoria. “Estou afastado da USP, com bolsa Print, no momento estou confinado em Paris, sem poder voltar ao Brasil porque as fronteiras estão fechadas”, explicou. “Tento acompanhar a pandemia no Brasil, ao lado do pandemônio do governo, e também aqui na França. Tem um tema que precisaria colocar em pauta. Como vocês sabem, não tem nenhuma novidade, uma possível vacina para esse vírus é uma coisa completamente remota. Paris está no início de uma espécie de desconfinamento, dia 11 começa. Está um grande debate dos riscos que isso significa, das crianças primárias irem para a escola e voltarem com o vírus para casa. O governo senta na mesa todos os dias para discutir com todas as classes sociais, com todos os sindicatos, todos os representantes das várias atividades. E no Brasil, obviamente, com o governo que a gente tem essa discussão não está ocorrendo. Onde eu quero chegar? No fato de que não adianta de repente falar: ‘Vamos retomar as aulas’, sei lá, em agosto, setembro, porque o vírus continuará proliferando, sobretudo porque no Brasil não se fez a quarentena na hora exata e com a força exata [com] que precisaria ser feita. Então infelizmente no Brasil essa proliferação vai continuar por muito mais tempo do que está acontecendo aqui na França, na Europa. Então esse açodamento da Reitoria de querer considerar que as atividades estão normais, que a USP não pode parar, e essa afobação de querer resolver uma questão que é muito mais transcendental do que simplesmente tomar uma decisão. É um vírus que mata realmente, os hospitais superlotados, as subnotificações. É uma discussão muito séria que vai precisar ser colocada na mesa de trabalho. Se já somos por princípio contra EaD, muito mais difícil é aceitar uma situação de emergência, utilizar de uma maneira precária. Mas muito mais grave é o risco que se vai correr com esse açodamento de querer retornar, resolver o semestre etc”.

Ricupero concordou com Oliveira. “Vamos dizer que 50% dos alunos estão minimamente acompanhando as atividades. Mas qual é o aprendizado? Qual a capacidade que os professores têm de dar exatamente o conteúdo que eles davam numa aula presencial nas aulas a distância, ou que os alunos acompanhem da mesma forma? Isso é muito limitado. O meu departamento discutiu que a gente estaria dando uma espécie de ensino emergencial, que estaria longe de ser o conteúdo de aula, é muito mais uma forma de manter vínculos, ajudar os alunos nesse momento difícil. O Paulo tem razão: a gente vai criar um engodo, independentemente da boa vontade dos colegas. Os alunos vão ter aproveitamento baixíssimo do conteúdo ministrado. Isso para não falar dos cursos que exigem laboratórios, atividades presenciais, práticas”.

Michele se disse agradecida a Oliveira, especialmente por saber “que alguém tão experiente com EaD suspendeu seus cursos”. Lembrou que a Adusp enviou ofício à PRG, que não respondeu. “Está um salve-se quem puder na USP que não vai parar”. Concordou com Minto quanto à importância de se salvar vidas, mas dentro de uma perspectiva mais ampla: preservar a vida e a saúde das pessoas, “inclusive a saúde mental”. Reforçou a avaliação de Beividas: “Estamos no momento de ascensão da curva [da epidemia no Brasil], estamos em recorde atrás de recorde, tanto das pessoas que estão morrendo quanto das que estão adoecendo. E justamente nesse momento já começa a se discutir o retorno às atividades, é uma irresponsabilidade absoluta”. Segundo Michele, há um plano de retorno, que vem sendo construído na Secretaria de Educação — e não na Secretaria de Desenvolvimento Econômico, à qual as universidades estão vinculadas.

Fonte: Adusp, disponível em https://www.adusp.org.br/index.php/defesauniv/3663-proposta-de-manter-ensino-funcionando-a-toque-de-caixa-e-passar-de-uma-semana-para-outra-do-presencial-ao-virtual-obviamente-nao-foi-bem-sucedida-diz-presidente-da-adusp

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